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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Conto sobre a paixão

O semáforo estava vermelho.
Nunca gostara muito de estar parado na primeira posição. Sempre tivera receio de se distrair e de, consequentemente, ser repreendido pelas buzinadelas irritadas dos condutores de trás.
Noutras circunstâncias permaneceria de pescoço esticado, nunca perdendo o semáforo de vista até que este voltasse a ficar verde.
Hoje era diferente. Tinha acabado de a deixar na paragem de autocarro. Essa mulher apaixonada, inteligente, meiga e inesperada que generosamente acabara de lhe oferecer uma centelha de vida dentro da vida.
Começava agora a perder-se em memórias quase sensoriais dos momentos que partilharam juntos nessa tarde: os seios de veludo, por baixo da roupa, a mão dela, quente, pousada sobre a sua, os lábios intensos e ávidos, a língua ágil, o toque suave, mas tão intenso, marcado a fogo na pele, o espaço exíguo do carro e a proximidade reconfortante dos corpos...
Apesar da clandestinidade do encontro, fora capaz de se abstrair de tudo. E isso deixava-o surpreendido consigo mesmo. E com ela. E com a forma como lhe demonstrou que a falta de paixão é fatal. Descobriu que afinal morria todos os dias. Em vez de viver.
Nunca duas horas duraram tanto tempo. E nunca duas horas foram tão curtas...
Lera algures que a rotina é uma coisa boa, se for bem vivida. Nunca gostara de citações perdidas e descontextualizadas, em geral enquandradas numa imagem de mau gosto e a tresandar a auto-ajuda. Mas passavam-lhe em frente dos olhos sem que as pudesse evitar e ficavam-lhe no subconsciente... De vez em quando vinham à superfície. Como hoje.
Hoje era diferente. Hoje absorvera por completo o sentido de uma rotina feliz na companhia daquela mulher com quem sonhava todos os dias. Aquela mulher que finalmente se materializara no seu carro, nas suas mãos, na sua boca, na sua pele, na sua alma...
Sentia-se aturdido pelo turbilhão de sentimentos e conflitos em que de repente se encontrava mergulhado. Mas por alguma razão estranha, tudo lhe parecia certo. Um sentimento inexplicável de felicidade invadira-o. E a serenidade acabou por se sobrepôr a tudo o resto.
Uma buzina trouxe-o de volta ao semáforo, que se tornara verde.
Com um sorriso descontraído levantou a mão direita, pedindo desculpa ao condutor de trás. Hoje era diferente. Enquanto metia a primeira, teve a única certeza férrea de que se lembrava dos últimos tempos: era o primeiro semáforo vermelho que não lhe deixava o pescoço dorido.

(imagem retirada daqui)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Modas e tendências: uma reflexão/protesto

Dos meus passeios sem destino aqui pela blogosfera, por vezes resultam reflexões que não consigo deixar de partilhar aqui.

Ora andava eu a passear por um desses muitos "blogs de moda" que se espalham por aí fora (incluindo este, que por vezes toca esses temas), e vi um post sobre as tendências relativamente às paletas de cores para este Outono de 2014, que já espreita (é, né? O Verão mal pôs cá os pés e o Outono, esse, pontualíssimo. Não tenhas tanta pressa, rapaz!).

Ora, parece que os "nudes" abundarão. Não me chateia nada. Primeiro, porque não sigo a moda de forma cega. Se me agrada, fico com ela. Se não, faço a minha. :-P Mas sim, os nudes: são cores neutras, "pastel", cores de terra, tons quentes, outonais, esbatidos.

Alguém comentou algo nestas linhas: "parece que vamos ter que dizer adeus às cores do verão...", num tom meio desolado a julgar pelo smiley bem descontente no final da frase.

Agora pergunto eu: mas vamos ter que dizer adeus, o quê? Alguém nos obriga a esquecer as cores vivas? Os vermelhos Ferrari, os vermelhos sanguíneos e os cyan, os laranjas, os amarelos, os castanhos, os rosa mais vivos, os verdes, os azuis cobalto, os azuis petróleo... Não é preciso dizer adeus a nada. Apenas há que ser criativo e usar o que se gosta.

Há dias li algo que na altura me deixou um pouco "enfezada", mas agora, depois de amadurecer a opinião, já consigo aceitar. A frase dizia algo nestas linhas: "nem todos nascemos com estilo". Na altura fiquei logo toda "eriçada". Mas agora entendo melhor o que se pretendia: nem todos "sabem" usar unhas cor-de-laranja, ou malas "Louis Vuitton", ou ainda aqueles portentosos "Louboutins" de sola inconfundivelmente vermelha (ai, que maravilhosos, alguns modelos... hehehe), reconheço isso. Mas mais, muito mais do que isso: cada um nasce com o seu próprio estilo. E isso, minhas queridas e meus queridos, é o que faz do mundo um lugar mais apetecível: a diversidade e a criatividade. :-)

Visão maravilhosa retirada da internet ;-)
 
Uma tendência não é mais do que isso mesmo: uma tendência. Uma guideline. Vou mais longe: uma sugestão. A partir daí há um mundo de atrevimentos à espera de acontecer! hehe

E com esta vos deixo em paz, até ao próximo post. ;-)